Os bonecos de madeira
Sempre adorei o meu Avô Daniel. Foi uma daquelas pessoas que têm o dom de fazer rir os outros, sem por vezes ter de fazer o mínimo esforço para tal. Sempre adoptou uma postura positiva perante a vida, era sincero, frontal, amigo. Fez a tropa em Macau, na altura do Estado Novo. Deliciava-me a ouvi-lo contar orgulhosamente as suas aventuras dos tempos de recruta, que incluíram um grande sucesso com as mulheres! O resto da sua vida passou-a sempre em Portugal, dividido entre a agricultura e o ofício de calceteiro.
Lembro-me como se fosse hoje da primeira vez em que me mostrou os seus bonecos de madeira. Estávamos na Páscoa e eu devia ter uns 6 anos. Enquanto o resto da família conversava na cozinha, eu e ele estávamos sentados no sofá a ver televisão. Estava com uma constipação tremenda, não parava de tossir e espirrar e só me apetecia ir para casa. A certa altura, ele levantou-se e foi buscar uma pequena caixa a uma prateleira. Abriu-a com um sorriso. Lá dentro estavam três bonecos, dois “rapazes” e uma “rapariga”, que retirou e poisou em cima da mesa. Assegurando-se de que captara a minha atenção, aproximou um dos rapazes à rapariga. De repente, os meus olhos brilharam. As cabeças aproximaram-se como que por magia e deram um beijo! Fiquei de boca aberta a olhar para o meu avô, enquanto ele ria, satisfeito. A seguir, pegou nos dois rapazes e fez exactamente o mesmo. Qual o meu espanto quando os vejo a desviar a cara um do outro! Fui chamar o meu pai, a minha mãe e a minha irmã para verem aquilo! Para mim, tinha sido um momento mágico. Vi no meu avô um feiticeiro, que mexia em bonecos vivos! Naturalmente, toda a família se riu da minha ingenuidade. Nessa noite, a minha irmã explicou-me o que era um íman e que os bonecos tinham um dentro das suas cabeças. Surpreendentemente, isso não quebrou a magia. A partir desse dia e durante anos, todas as vezes em que ia ver o meu avô, pedia-lhe para “fazer aquilo com os bonecos”. Acho que a magia vinha da maneira quase ritualista com que ele os tirava da caixa, pousava-os na mesa e fazia o seu “número”. Se fosse outra pessoa a fazê-lo, acredito que perderia todo o encanto. Aquele era um momento só nosso, tão sagrado para mim como para ele.
Os anos passaram e os bonecos foram ficando cada vez mais tempo dentro da caixa, até não saírem mais de lá. Foram trancados, juntamente com a inocência e a simplicidade da minha infância perdida.
No dia dos meus 18 anos, o avô Daniel veio almoçar à minha casa. A certa altura, aproximou-se de mim com um presente nas mãos. Não fazia ideia do que era. Abri e abracei-o de imediato. Tinha-me dado a caixa com os bonecos. Foi, sem dúvida, a melhor prenda que ele me poderia ter dado. Nenhuma outra teria tanto significado.
Se a relação com o meu avô já era óptima, ficou ainda mais forte. Aproveitando o facto de já ter carro, escapava-me muitas vezes para a sua aldeia, para estar com ele e rir-me com as suas histórias. Não imaginava a minha vida sem ele. Ajudou-me em muitas alturas difíceis da minha adolescência, com aquele jeito muito próprio de fazer parecer os maiores problemas as coisas mais simples do mundo. Estava mesmo muito ligado ao meu avô. Percebe-se assim porque fiquei arrasado quando soube que ele tinha tido um enfarte.
Mal cheguei ao hospital, a minha avó abraçou-se a mim, a soluçar. O caso era tão grave que os médicos não podiam prever se ele iria sobreviver. Estavam a fazer todos os possíveis, mas a violência do ataque, aliada à idade avançada, faziam temer o pior. Aquilo era demais para mim. O meu avô, sempre bem disposto, de bem com a vida, deitado numa cama de hospital à espera da morte?! Não, não podia aceitá-lo!
Sentei-me num canto, sozinho. Os médicos pareciam-me simultaneamente anjos e demónios. Anjos, porque eram a minha única esperança de ver o meu avô bem. Demónios, porque imaginava-os a entupirem-no de tubos, a darem-lhe injecções, a taparem-lhe o rosto depois de confirmada a morte. Estava demasiado confuso e perdido. Uma parte de mim morreria com aquele homem.
Não sei precisar exactamente quantas horas se passaram. A mim, pareceram-me dias. Só sei que finalmente um médico se dignou a informar-nos do que se estava a passar. A princípio, foi só uma premonição terrível. Depois, veio a quase confirmação no olhar da minha avó, seguida da certeza agonizante que o seu choro trouxe. O meu avô Daniel estava morto.
Demorei muito a decidir se iria ao funeral. Arrepiava-me só de pensar no momento em que abrissem o caixão e eu visse o que não queria ver. Queria que a minha última imagem do meu avô fosse a de ele bem, vivo, alegre e não a de um corpo inerte e gélido. Além disso, não queria dividir a nossa despedida com mais ninguém. Acabei por ceder apenas devido à insistência dos meus pais. Vesti-me, meti-me no carro e preparei-me para o adeus.
Vi muitos rostos desconhecidos no cemitério. Amigos que eu não conhecia, até primos meus que eu nunca tinha visto. Uma multidão imensa chorava e prestava homenagem ao meu avô e, no entanto, senti que ninguém o conhecera tão bem como eu, ninguém sabia quem ele era realmente.
Apesar de tudo, não tinha a mínima vontade de chorar. Sentia, isso sim, um enorme vazio. O padre lia versículos da Bíblia, tentando consolar os vivos com a promessa da ressurreição dos mortos. Quem me dera acreditar nisso. Seria tudo tão mais fácil. Naquele momento invejei aqueles que confiam no infinito, na eternidade da essência do ser. Pena que a vida me parecesse exactamente o contrário. Naquele momento, tive a certeza de que se tratava apenas de uma mera corrida para a inexistência eterna. Qual o sentido afinal? Porque é que homens como o meu avô tinham de morrer? Porque é que Deus não abre uma excepção para aqueles que não sabem fazer mais nada na vida se não amar? Não foi isso que ele mandou fazer?
Estava-me a ser cada vez mais difícil continuar ali. Quem me dera que todas aquelas pessoas tivessem desaparecido no ar. Estavam a sufocar-me. Ouvi então que o caixão iria ser aberto pela última vez. Decidi não ver. Sei que seria isso que o meu avô aprovaria.
Fui incapaz de ficar até ao fim. Peguei no carro e fui andar sem destino. Quando cheguei a casa, o meu pai chorava, sentado no sofá. Quis consolá-lo, dizer-lhe qualquer coisa que fosse, mas fiquei calado. Acho que nem deu por eu entrar. Nessa noite, fechei-me no quarto e fiquei à janela a fumar cigarro atrás de cigarro, tentando que a dor se esfumasse junto com o tabaco. Finalmente, senti uma lágrima a cair. Depois outra. E mais outra. Rendi-me, baixei as defesas e libertei a alma. Nunca chorei tanto na minha vida.
Eram 4 da tarde quando saí do quarto. Não vi os meus pais, deviam estar ainda a dormir, ou a tentar. De repente, tive a certeza de que faltava qualquer coisa, de que havia algo que tinha forçosamente de fazer antes de tudo terminar. A resposta tornou-se quase instantaneamente óbvia.
Encontrava-me de novo no cemitério, mas desta vez, a sós com o meu herói. Depois de alguns instantes de completa imobilidade, debrucei-me sobre a campa, com uma caixa na mão. De lá de dentro retirei um dos bonecos de madeira que o meu avô me tinha dado. Um dos “rapazes”. De seguida, enterrei-o com cuidado. Fiquei ainda por mais alguns momentos e vim-me depois embora com uma surpreendente sensação de leveza. Entrei de novo no carro e fui até à praia. Sempre adorei o pôr-do-sol no Verão, mas nunca tinha pensado naquilo que ele nos ensina. Tudo tem um ciclo, mas nada termina realmente. Surpreendi-me com a minha súbita visão optimista da realidade. Sentei-me numa esplanada quase deserta e poisei os restantes bonecos, o outro “rapaz” e a “rapariga”, deitados em cima da mesa. Fechei os olhos por momentos, senti-me entrar num estado introspectivo, de meditação pura, de comunhão. Senti o vento no rosto, o cheiro do mar a envolver-me. E foi então que ouvi uma voz chamar-me. Abri os olhos e vi uma menina muito loura e de olhos azuis a sorrir para mim. Estava encantada com os bonecos, inexplicavelmente em pé e a beijarem-se. Não sei dizer o que senti naquele momento. Entreguei-lhos e deixei-a brincar com eles, enquanto as lágrimas me corriam pelo rosto. Perguntei-lhe o nome e a resposta veio inundar-me de paz. Daniela. Fechei mais uma vez os olhos e pareceu-me ouvir ao longe a gargalhada feliz do meu avô Daniel.

3 Comments:
lindo! arrepiante! parabéns por sentires as coisas desta forma Luis! um grande beijinho!
Curioso...
Faz hoje precisamente dois anos que o meu avô (não um Daniel, mas sim um José) deixou a sua existência terrena. E logo hoje, leio esta 'estória'...
Curioso...
A mim, o meu avô não deixou bonecos mágicos... Mas as suas gargalhadas, a paixão pelos reis de outrora e pelos rios de Portugal, as anedotas que sempre começavam com 'Havia um indivíduo...' e as suas aventuras nos comboios da CP, vão ficar para sempre gravadas na minha memória e no meu coração...
um texto cheio de sentimento luis, é inexplicavel quando perdemos alguem que nos é tão querido, que foi a referência da nossa vida...a dor, o sofrimento, aquela terrivel ausência que nos sufoca, é tão dificil e dolorosa...apercebemo nos entao um dia, que essa pessoa tão querida estará sempre connosco, dentro do nosso coração! beijo**
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