Indefinições
Agarro-me a essas manhãs perdidas às quais a luz se esqueceu de dar pureza.
Mergulho na penumbra da minha própria alma e descubro mundos inquietantes e irreais.
Solto um grito de desespero, as asas derretem e caio no abismo da existência.
Permito-me uma última pergunta antes do impacto fatal. A derradeira. A mais importante de todas.
Quem sou eu?
Só agora me apercebo que tudo o resto é nada.
Quem me pintou para ti? Que cores viste?
Agora já não sou eu que caio, estou sentado num trono de estrelas enquanto vejo o mundo passar.
Caem pessoas, animais, árvores, casas, água, areia, sonhos, desejos, medos.
Apenas eu me mantenho uno e constante.
Tudo o resto é passageiro.
Tudo o resto tem um fim.
O que é que viste em mim? O que fez com que voltasses a olhar?
A lua brilha lá fora e as lágrimas caem-me ao ritmo da solidão.
Escrevo uma frase qualquer num papel que rasgo de imediato.
Gostava de saber o que dizia.
Não, não quero mais isto.
Queria conseguir esquecer que não sei quem sou.
Arranjaria um qualquer artificio, seria actor no palco da minha vida, encarnaria um papel que, bem interiorizado, me definiria e seria porventura feliz.
Ilusoriamente? Sim, talvez.
Mas tudo é melhor do que isto.
Está frio aqui.
Não sentes?
Espera, onde vais?
Fica mais um pouco.
Já que pagaste bilhete, vê o espectáculo até ao fim.
Se estou louco?
Se calhar estou.
Fizeste bem o teu trabalho.
Pois, sou um ingrato.
Mas sabes, às vezes preferia que não me tivesses feito olhar para dentro de mim.
Perdoa-me.
Não queria dizer isto.
Mas será que não viste que eu não estava preparado?
O mínimo que poderias ter feito era acompanhar-me.
Mas não.
Deixaste-me no escuro, perdido, contorcido numa convulsão de dor dilacerante que me arrancou a ligação ao mundo.
Não imaginas como me odiei por não te conseguir odiar.
Olha onde me trouxeste.
Mas não importa, vou ficar aqui agora.
É seguro, não vou mais além.
Espera, estão a bater à porta.
Do outro lado está uma criança vestida de vermelho.
Reconheço nos seus olhos, os teus.
Pego-a ao colo e adormece tão profundamente como se a verdadeira paz não existisse senão dentro dela.
Uma resposta?
Sim.
Agora sei porque te amo.
Obrigado por não me abandonares.

1 Comments:
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