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Location: Torres Vedras, Portugal

Friday, June 17, 2005

Verdades

Estou imóvel, frio, em silêncio. As palavras preparam-se para me embriagar de sentimentos. A chuva cai lá fora, emprestando à terra aquele cheiro que nos faz sentir vivos, que nos faz acreditar que ainda alguma coisa é real, pura e genuína. Estou sozinho. Bebo cada letra como se fosse um shot de absinto, faço um charro com as metáforas, aspiro cada verbo como um risco de pó que me leva para longe.
Para onde vou ninguém me pode seguir, nem quero que me sigam. Quero gritar á vontade.
A caneta dança uma valsa indefinida com as páginas. Faz amor com elas. Vem-se para cima delas num orgasmo que é meu. Nem sei o que escrevo. É como se tivesse qualquer coisa cá dentro que tem de sair, precisa sair, precisa SER qualquer coisa. E a cada palavra que escrevo, mesmo que não saiba o que é, o que significa, eu sou mais eu. Faço então um pacto com esse algo que não sei. Deixo-o sair e ele devolve-me a mim mesmo. Deixa-me anestesiado deste mundo que me molda para que eu me possa ver como sou.
Levanto-me a custo da cadeira, em pleno êxtase e saio de casa. Vejo tudo a andar à roda, tudo a transformar-se, a revelar-se na sua essência. Não consigo evitar uma gargalhada ao ver como algumas coisas ficam ridículas sem a máscara. Corro como um louco pelas ruas, atravesso a estrada com os carros a apitar e chego ao outro lado. O mar sorri-me. Sento-me num muro a observar os barcos lá em baixo, a deslizar pelo seu corpo. Fecho os olhos e deixo-me levar. Tudo é finalmente tão verdadeiro. Sinto-me o Rei do mundo, senhor do conhecimento, superior a toda a gente, apetece-me gozar com as pessoas que ainda vão andando agarradas ás suas pequenas ilusões e dizer que eu sou realmente eu e elas não, elas não, ninguém sabe, ninguém sente isto, ninguém vive realmente. De repente sinto alguém tocar-me no ombro. É um velho vagabundo que me olha, olha realmente, para mim, para aquilo que eu sou e que vejo dançar-me nos olhos quando estou em frente ao espelho. Não pensei que isso fosse possível, mais ninguém o tinha feito. Pega-me na mão e leva-me até à praia. Vejo ao fundo uma fogueira com gente à volta. O velho senta-me perto deles. Alguém me passa um charro sem me dirigir um olhar. Ainda surpreso, fumo-o, com a supervisão dele. Ficámos ali numa harmonia que nenhuma palavra pode definir, até que o velho finalmente falou e disse-me que aquele era “o charro da verdade” e para eu a deixar chegar a cada parte de mim. Verdade? Pensei que sabia o que é a verdade e que mais ninguém poderia saber…mas aquele charro estava a rodar por todos! Reparei que cada um reagia de maneira diferente, havia quem risse, quem chorasse, quem ficasse simplesmente imóvel. Quanto a mim, senti uma onda de prazer que me invadiu o corpo e me fez perder os sentidos. Quando acordei, estava numa sala de aula, com o meu velho professor de Português a ler um jornal sentado na sua secretária, os meus colegas a escreverem em silêncio e no quadro, o tema da aula de hoje: «O desafio da folha em branco».
Não há verdade, mas verdades.

2 Comments:

Blogger Koala said...

Sem duvida que este é o post com o kual m identifiko mais...e, s por acaso reparast na essência dos meus textos ate agora colocados, remetem maioritariamente para duas palavras chave: "máscara" e "verdadeiro", camufladas muitas das vezes...
Um beijinhuh*

3:52 PM  
Anonymous Rakel said...

Todas elas, tuas!

5:09 PM  

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