devaneios

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Location: Torres Vedras, Portugal

Sunday, October 29, 2006

Novembro

Silêncio. Um silêncio que nenhuma palavra pode definir. Mergulho em mim mesmo na esperança de te ouvir sussurrar o meu nome. Vou até ao fundo, olho em volta, sinto-me louco, vibrante, desesperado. Em todos os recantos da minha alma vejo o teu nome escrito a sangue...

No dia em que partiste, tinha acordado anormalmente cedo. Levantei-me, comi aquele bolo que achas horrível, bebi um café mal tirado e fumei um cigarro na varanda. A vizinha da frente já começara a sua lida diária...não sei como é que ela aguenta...lembras-te de quando nos metíamos colados à janela da sala com a luz apagada, a olhar para dentro da casa dela? 4 filhos para criar, um marido que não prima propriamente pela delicadeza, a mãe doente...naquela altura em particular, sacudia os tapetes do quarto com uma energia surpreendente, tendo em conta que é magríssima. Fiquei a observá-la um minuto e olhei para baixo. Vi o teu pai passar no “Audi” para o trabalho, não sei se ele me viu. Voltei a entrar em casa, tomei um duche rápido, fiz a barba, lavei os dentes, vesti-me e sentei-me a fazer tempo. Passei os olhos pelas fotos que estão em cima da mesa e sorri ao ver aquela em que estamos de mãos dadas na praia em Santa Cruz. Lembras-te desse dia? Era Inverno, o mar estava bravo, mas teimaste em ir para perto dele tirar a foto...mal a Joana disparou o flash, veio uma onda que nos encharcou aos dois e apanhámos uma constipação para o resto da semana!...mas naquele momento nada importava, abracei-te e caímos na areia molhada...o sal da tua boca soube-me ao mais puro mel...sempre adorei beijar-te, sentir o calor dos teus lábios nos meus, pôr em cada beijo tudo o que sinto por ti. Quando te roubei o nosso primeiro beijo, estavas linda...tínhamos ido ao castelo, estávamos numa das torres e fechaste os olhos ao sentir o vento no rosto. Abracei-te por trás e disse-te ao ouvido : “isto é muito maior do que nós...” , voltei-te e beijei-te a alma...
Olhei para o relógio, estava na hora. Desci pelas escadas, o elevador estava avariado, como sempre. Tirei o carro da garagem e fui para Lisboa, a cidade onde eu sempre disse que não queria trabalhar...pus o cd dos Oasis, abri a janela e acendi um cigarro. A viagem correu bem, fora o trânsito infernal da calçada. Quando cheguei ao centro, aproveitei a espera nos sinais para acender um novo cigarro e observar as pessoas que andavam de um lado para o outro, como autênticas formigas atarefadas. E todas com uma personalidade, com sonhos, com medos, com uma história. Só a buzinadela do carro de trás me acordou do transe em que tinha caído, o sinal estava verde há horas...
Mal entrei no edifício do Jornal, a D. Rosa, sempre atenciosa, deu-me logo os bons dias com um sorriso radioso. O Jorge já esperava por mim com aquele olhar de quem me vai dar que fazer...não me enganei. Quando dei por mim já estava de novo na rua para cobrir as declarações de mais um tarado da Casa Pia. Vim-me embora enojado e ainda tive de ir escrever o artigo.
Quando finalmente pude almoçar, fui àquele chinês onde fomos no outro dia. A dona ainda se lembrava de mim e perguntou por ti. O filho dela, de 3 anos, fez-me pensar nas vezes em que encontrávamos uma criança na rua e comentávamos o quanto queríamos ter uma coisinha daquelas só nossa. O meu maior sonho era ter um filho contigo. Imaginava-me a entrar na maternidade e a ver-te agarrada a ele, olhavas para mim e dizias com as lágrimas nos olhos: “é o nosso filho”...nada no mundo me faria mais feliz...
O resto do dia não teve mais nada de especial. Acabei aquele artigo sobre o avanço da cirurgia sem sangue e ajudei o Carlos com aquele que ele diz que será o seu “melhor artigo de sempre”...já na semana passada dizia o mesmo...
Vim-me embora logo que pude, estava demasiado farto. Quando voltei a entrar em casa, senti um alívio enorme. Fui ao bar, tirei a garrafa de licor e acendi um cigarro. A luz, ainda apagada, dava um ar envolvente á casa. As luzes de fora reflectiam no copo e o fumo do cigarro tornava a realidade turva. Fechei os olhos e deixei-me levar. Desliguei o telemóvel, mas esqueci-me da rede fixa, no entanto, nem o toque do telefone me arrancou do sofá. Esperei que o atendedor de chamadas fizesse o serviço por mim. Ouvi primeiro uma voz muito baixa que a princípio não percebi de quem era, mas quem fosse estava triste, muito triste. Eras tu. Voltei a passar a gravação até que a percebi por completo. Dizias: “liguei para o telemóvel, mas estava desligado...era só para dizer que vou passar por aí depois do jantar, pode ser? Temos de falar...1 beijo...” . comecei de imediato a limpar a casa, sei que não gostas que eu tenha tudo fora do sítio. Aqueci uma pizza no microondas, bebi o resto de um tinto que tinha sobrado da semana passada, quando o Diogo e o Artur vieram cá para jogarmos poker na mesa de jogo nova e pus-me a ver um filme enquanto esperava por ti. O tom triste da tua voz não me saía da cabeça.
Quando ouvi o barulho da porta, levantei-me e esperei que aparecesses na sala. A habitual correria para os meus braços não aconteceu, entraste de cabeça baixa, a brincar com a chave. Estavas linda como sempre. A saia comprida que eu te dei quando fizemos 2 anos, a camisola branca que era da tua mãe, o cabelo solto a cair sobre os ombros. Finalmente levantaste a cabeça, deste-me um beijo rápido e perguntaste-me o que tinha jantado, como tinha sido o dia, etc...percebi nitidamente que te estavas a preparar para me dizer algo de muito sério, mas não quis forçar. Sentámo-nos a ver o resto do filme quase em silêncio e quando acabou, pediste-me para sairmos. O ambiente estava pesadíssimo e eu sem perceber porquê. Estava quase a perguntar-te quando de repente me pediste para ir até ao castelo. Esperava que quando estivéssemos na torre, falasses comigo, mas limitaste-te a fechar os olhos e a sentir o vento no rosto. Passados alguns minutos, deste-me a mão e puxaste-me de novo para o carro, de volta a casa. Não aguentei e pedi que falasses comigo, mas recusaste. Foste a primeira a entrar em casa, não acendeste a luz e foste até à janela da sala. Depois de alguns segundos de completo silêncio, começaste a tirar a roupa. Fiquei paralisado ao ver-te fazê-lo. Quando a lua te desenhou os contornos do corpo, pareceste-me uma deusa materializada à minha frente. Completamente nua, avançaste devagar sem desviar os olhos dos meus. Pediste-me para me despir também, com a voz mais doce e sexy que pode existir, deste-me a mão e fomos para o quarto. Enrolaste um charro que fumámos a meias. Deitaste-te e eu percorri todo o teu corpo com a boca, mergulhei nos teus seios como um louco enquanto gemias de prazer. Fizemos amor de uma maneira apaixonada, louca, como se o mundo acabasse no dia seguinte. Os teus lábios ardiam, o teu corpo parecia um vulcão, tive vertigens, alucinações, pareceu-me ver tudo a andar á roda, gritei sem parar enquanto as ondas de prazer invadiam-me por todo o lado. Quando o orgasmo chegou, tive a sensação de que foi para os dois. Os nossos corpos uniram-se numa convulsão que nos quebrou o fio de prata e as almas ficaram a possuir-se no astral, numa explosão sensorial indiscritível. Quando acabámos, o suor escorria, a temperatura do quarto tinha chegado a um nível insuportável de calor, estávamos os dois completamente arrasados...mas nunca tinha sido tão bom.
Fumámos o melhor cigarro das nossa vidas, enquanto o ritmo cardíaco descia até ao normal. Abracei-te novamente e disse-te que te amava. Começaste a chorar.
Não podia aguentar mais sem saber o que te tinha levado ali, qual a razão daquilo tudo que tinha acabado de acontecer. Levantaste-te, vestiste-te e foste para a sala. Quando lá cheguei, fumavas outro cigarro, de costas para mim. Quando começaste a falar, foi como se o mundo me caísse aos pés. Vieste com um discurso todo mal articulado, em que dizias que tinha sido a nossa última vez, que irmos até ao castelo e dar a melhor queca de sempre, foi, afinal, uma despedida. Já não me amavas, tinhas encontrado outra pessoa e era melhor acabarmos agora, antes que tivesses de me trair. Não quis acreditar no que estava a ouvir, pedi-te para parares com a brincadeira, e quando vi que realmente não estavas a brincar, abanei-te aos berros, chamei-te mentirosa, não podia ser, nós tínhamos acabado de fazer amor, AMOR e não sexo, senti-te, estavas a amar-me, tu amavas-me, porque é que estavas a dizer aquilo, porquê?! A loucura e o ciúme arrancaram-me a lucidez, quis saber á força quem era, mas tu não me disseste. Olhaste para mim uma última vez e foste embora, enquanto eu chorava de raiva e dor. Vi-te sair a toda a velocidade no Peugeot, numa direcção oposta á tua casa. Calculei logo que fosses ter com ele, ceguei-me completamente, rasguei as fotos da sala, parti a jarra que me deste e deitei-me no chão completamente contorcido, a chorar sem parar. Queria morrer, queria esquecer, queria que tudo aquilo não passasse de um sonho, e fiz por acreditar nisso. Enrolei 2 charros e fumei-os de seguida, bebi de tudo o que tinha em casa, peguei no carro e fui até Santa Cruz, comprei 1 garrafa de vodka no Café Parque e fui para a praia. Deitei-me ao comprido na areia, desejei enterrar-me nela e desaparecer, levantei-me e corri como um louco aos gritos, pedi ao penedo do guincho que me caísse em cima, tal era a dor que sentia. Entrei no mar e quase morria afogado, se um pescador não tivesse arriscado a própria vida para me salvar. No caminho de volta para o carro, vi as pessoas olharem para mim com um olhar reprovador. Estava-me a cagar. Odiava-as. Odiava-as mais do que nunca. Já na estrada, não fiz uma curva e bati contra um muro. Acordei no dia seguinte no hospital, com a minha mãe a segurar-me a mão e um médico a dizer-me que tinha tido muita sorte...quis saber se estavas lá, mas não. Tinhas apenas telefonado há 10 minutos, só para saber como é que eu estava, mas nem sequer foste ao hospital. Deram-me alta ao fim da tarde, despedi-me a custo da minha mãe que queria à força ir passar a noite comigo e fui-me embora. Nunca me senti tão sozinho. A casa, que tinha sido um sonho realizado, parecia-me agora um autêntico mausoléu. Em cima da mesa estavam as tuas chaves, que tinhas deixado sem eu perceber. Os restos das nossas fotos estavam espalhados pelo chão. Juntei-os, mas não tive coragem de os deitar fora.
Também não fui capaz de me deitar na cama.
Estive para pedir baixa, mas optei por não o fazer. Nos dias seguintes absorvi-me completamente no trabalho, para tentar não pensar. Na primeira semana fui dormir a casa da minha mãe, só depois tive coragem de voltar para a minha. Aos poucos recomecei a sair e a estar com as pessoas. Fui distinguido como o melhor jornalista do Público, graças aos meus recentes artigos. Estava finalmente a recuperar.
Remodelei a casa, troquei de cama e escondi tudo o que pudesse lembrar-me de ti. Sentia-me de novo bem nela, tanto que comecei a trazer trabalho para fazer no portátil, porque já me conseguia concentrar novamente estando lá. Foi no meio de um artigo, numa noite escura de Novembro, ás 3 da manhã que o telemóvel tocou. Era a tua mãe. Ligou para dizer que tinhas morrido.
Quando cheguei ao hospital, ela abraçou-me a soluçar e disse que tinha uma coisa para me entregar. Era uma carta tua. Fui para a varanda, acendi um cigarro e comecei a ler, enquanto as lágrimas me escorriam pela cara.

“há meses atrás comecei a sentir dores horríveis na barriga. Não te quis dizer nada para não te afligir, e fui ao médico sozinha, no dia em que estivemos juntos pela última vez. Disseram-me que tinha um cancro em estado avançado e incurável. Contei aos meus pais mas nunca quis que soubesses. Preferi inventar aquela estória toda, porque por mais que ela te tenha feito sofrer, sei que não se compara ao que sentirias se me visses a morrer aos poucos. Amo-te demasiado para te fazer passar por isso. Chorei de felicidade quando vi a notícia do teu prémio, e de dor por não poder festejar contigo. Sempre soube que chegarias onde quisesses.
Toma bem conta da casa, não deixes as coisas todas espalhadas como sempre!...lutaste muito para a ter...
Peço-te que apoies a minha mãe nestes primeiros tempos, sabes que ela te adora... não imaginas o quanto foi difícil para ela não te dizer nada...
Não quero que desistas do teu sonho de ter um filho. És um homem maravilhoso, não vais ter dificuldade alguma em arranjar outra pessoa e tenho a certeza que também a irás amar. Só não sei se ela te amará tanto como eu te amei...
Perdoa-me.
Amo-te muito.

Ana”

A Primavera começa a florir. Os dias já são mais longos, as folhas orgulham-se do seu verde, a vida renasce. Estou no castelo, na torre onde tudo começou. O teu funeral já foi há quase 4 meses, mas só agora consegui vir aqui. Tenho as nossas fotos que rasguei. Tentei uni-las novamente, mas estão demasiado rasgadas, assim, optei por entregar-tas.
Pego nelas e deixo-as ao vento. Fecho os olhos e sinto-o no meu rosto.
Deixo cair uma lágrima enquanto alguém me beija a alma...

Thursday, September 14, 2006

Os bonecos de madeira

Sempre adorei o meu Avô Daniel. Foi uma daquelas pessoas que têm o dom de fazer rir os outros, sem por vezes ter de fazer o mínimo esforço para tal. Sempre adoptou uma postura positiva perante a vida, era sincero, frontal, amigo. Fez a tropa em Macau, na altura do Estado Novo. Deliciava-me a ouvi-lo contar orgulhosamente as suas aventuras dos tempos de recruta, que incluíram um grande sucesso com as mulheres! O resto da sua vida passou-a sempre em Portugal, dividido entre a agricultura e o ofício de calceteiro.
Lembro-me como se fosse hoje da primeira vez em que me mostrou os seus bonecos de madeira. Estávamos na Páscoa e eu devia ter uns 6 anos. Enquanto o resto da família conversava na cozinha, eu e ele estávamos sentados no sofá a ver televisão. Estava com uma constipação tremenda, não parava de tossir e espirrar e só me apetecia ir para casa. A certa altura, ele levantou-se e foi buscar uma pequena caixa a uma prateleira. Abriu-a com um sorriso. Lá dentro estavam três bonecos, dois “rapazes” e uma “rapariga”, que retirou e poisou em cima da mesa. Assegurando-se de que captara a minha atenção, aproximou um dos rapazes à rapariga. De repente, os meus olhos brilharam. As cabeças aproximaram-se como que por magia e deram um beijo! Fiquei de boca aberta a olhar para o meu avô, enquanto ele ria, satisfeito. A seguir, pegou nos dois rapazes e fez exactamente o mesmo. Qual o meu espanto quando os vejo a desviar a cara um do outro! Fui chamar o meu pai, a minha mãe e a minha irmã para verem aquilo! Para mim, tinha sido um momento mágico. Vi no meu avô um feiticeiro, que mexia em bonecos vivos! Naturalmente, toda a família se riu da minha ingenuidade. Nessa noite, a minha irmã explicou-me o que era um íman e que os bonecos tinham um dentro das suas cabeças. Surpreendentemente, isso não quebrou a magia. A partir desse dia e durante anos, todas as vezes em que ia ver o meu avô, pedia-lhe para “fazer aquilo com os bonecos”. Acho que a magia vinha da maneira quase ritualista com que ele os tirava da caixa, pousava-os na mesa e fazia o seu “número”. Se fosse outra pessoa a fazê-lo, acredito que perderia todo o encanto. Aquele era um momento só nosso, tão sagrado para mim como para ele.
Os anos passaram e os bonecos foram ficando cada vez mais tempo dentro da caixa, até não saírem mais de lá. Foram trancados, juntamente com a inocência e a simplicidade da minha infância perdida.
No dia dos meus 18 anos, o avô Daniel veio almoçar à minha casa. A certa altura, aproximou-se de mim com um presente nas mãos. Não fazia ideia do que era. Abri e abracei-o de imediato. Tinha-me dado a caixa com os bonecos. Foi, sem dúvida, a melhor prenda que ele me poderia ter dado. Nenhuma outra teria tanto significado.
Se a relação com o meu avô já era óptima, ficou ainda mais forte. Aproveitando o facto de já ter carro, escapava-me muitas vezes para a sua aldeia, para estar com ele e rir-me com as suas histórias. Não imaginava a minha vida sem ele. Ajudou-me em muitas alturas difíceis da minha adolescência, com aquele jeito muito próprio de fazer parecer os maiores problemas as coisas mais simples do mundo. Estava mesmo muito ligado ao meu avô. Percebe-se assim porque fiquei arrasado quando soube que ele tinha tido um enfarte.
Mal cheguei ao hospital, a minha avó abraçou-se a mim, a soluçar. O caso era tão grave que os médicos não podiam prever se ele iria sobreviver. Estavam a fazer todos os possíveis, mas a violência do ataque, aliada à idade avançada, faziam temer o pior. Aquilo era demais para mim. O meu avô, sempre bem disposto, de bem com a vida, deitado numa cama de hospital à espera da morte?! Não, não podia aceitá-lo!
Sentei-me num canto, sozinho. Os médicos pareciam-me simultaneamente anjos e demónios. Anjos, porque eram a minha única esperança de ver o meu avô bem. Demónios, porque imaginava-os a entupirem-no de tubos, a darem-lhe injecções, a taparem-lhe o rosto depois de confirmada a morte. Estava demasiado confuso e perdido. Uma parte de mim morreria com aquele homem.
Não sei precisar exactamente quantas horas se passaram. A mim, pareceram-me dias. Só sei que finalmente um médico se dignou a informar-nos do que se estava a passar. A princípio, foi só uma premonição terrível. Depois, veio a quase confirmação no olhar da minha avó, seguida da certeza agonizante que o seu choro trouxe. O meu avô Daniel estava morto.
Demorei muito a decidir se iria ao funeral. Arrepiava-me só de pensar no momento em que abrissem o caixão e eu visse o que não queria ver. Queria que a minha última imagem do meu avô fosse a de ele bem, vivo, alegre e não a de um corpo inerte e gélido. Além disso, não queria dividir a nossa despedida com mais ninguém. Acabei por ceder apenas devido à insistência dos meus pais. Vesti-me, meti-me no carro e preparei-me para o adeus.
Vi muitos rostos desconhecidos no cemitério. Amigos que eu não conhecia, até primos meus que eu nunca tinha visto. Uma multidão imensa chorava e prestava homenagem ao meu avô e, no entanto, senti que ninguém o conhecera tão bem como eu, ninguém sabia quem ele era realmente.
Apesar de tudo, não tinha a mínima vontade de chorar. Sentia, isso sim, um enorme vazio. O padre lia versículos da Bíblia, tentando consolar os vivos com a promessa da ressurreição dos mortos. Quem me dera acreditar nisso. Seria tudo tão mais fácil. Naquele momento invejei aqueles que confiam no infinito, na eternidade da essência do ser. Pena que a vida me parecesse exactamente o contrário. Naquele momento, tive a certeza de que se tratava apenas de uma mera corrida para a inexistência eterna. Qual o sentido afinal? Porque é que homens como o meu avô tinham de morrer? Porque é que Deus não abre uma excepção para aqueles que não sabem fazer mais nada na vida se não amar? Não foi isso que ele mandou fazer?
Estava-me a ser cada vez mais difícil continuar ali. Quem me dera que todas aquelas pessoas tivessem desaparecido no ar. Estavam a sufocar-me. Ouvi então que o caixão iria ser aberto pela última vez. Decidi não ver. Sei que seria isso que o meu avô aprovaria.
Fui incapaz de ficar até ao fim. Peguei no carro e fui andar sem destino. Quando cheguei a casa, o meu pai chorava, sentado no sofá. Quis consolá-lo, dizer-lhe qualquer coisa que fosse, mas fiquei calado. Acho que nem deu por eu entrar. Nessa noite, fechei-me no quarto e fiquei à janela a fumar cigarro atrás de cigarro, tentando que a dor se esfumasse junto com o tabaco. Finalmente, senti uma lágrima a cair. Depois outra. E mais outra. Rendi-me, baixei as defesas e libertei a alma. Nunca chorei tanto na minha vida.
Eram 4 da tarde quando saí do quarto. Não vi os meus pais, deviam estar ainda a dormir, ou a tentar. De repente, tive a certeza de que faltava qualquer coisa, de que havia algo que tinha forçosamente de fazer antes de tudo terminar. A resposta tornou-se quase instantaneamente óbvia.
Encontrava-me de novo no cemitério, mas desta vez, a sós com o meu herói. Depois de alguns instantes de completa imobilidade, debrucei-me sobre a campa, com uma caixa na mão. De lá de dentro retirei um dos bonecos de madeira que o meu avô me tinha dado. Um dos “rapazes”. De seguida, enterrei-o com cuidado. Fiquei ainda por mais alguns momentos e vim-me depois embora com uma surpreendente sensação de leveza. Entrei de novo no carro e fui até à praia. Sempre adorei o pôr-do-sol no Verão, mas nunca tinha pensado naquilo que ele nos ensina. Tudo tem um ciclo, mas nada termina realmente. Surpreendi-me com a minha súbita visão optimista da realidade. Sentei-me numa esplanada quase deserta e poisei os restantes bonecos, o outro “rapaz” e a “rapariga”, deitados em cima da mesa. Fechei os olhos por momentos, senti-me entrar num estado introspectivo, de meditação pura, de comunhão. Senti o vento no rosto, o cheiro do mar a envolver-me. E foi então que ouvi uma voz chamar-me. Abri os olhos e vi uma menina muito loura e de olhos azuis a sorrir para mim. Estava encantada com os bonecos, inexplicavelmente em pé e a beijarem-se. Não sei dizer o que senti naquele momento. Entreguei-lhos e deixei-a brincar com eles, enquanto as lágrimas me corriam pelo rosto. Perguntei-lhe o nome e a resposta veio inundar-me de paz. Daniela. Fechei mais uma vez os olhos e pareceu-me ouvir ao longe a gargalhada feliz do meu avô Daniel.

Friday, July 28, 2006

Garra Centenária

Venha quem vier

Vou representar com orgulho
os que vestem as nossas cores

Vou ser a força que faz calar
a voz dos nossos opositores

Vou honrar os que acreditam
e só pensam na vitória

Vou lutar com esforço, dedicação
e devoção...em busca da glória!


Eis o texto do anúncio "Garra Centenária", que está simplesmente brutal. Lamps, roam-se de inveja. Fica aqui o link, para quem ainda não viu: http://www.sporting.pt/Servicos/Gamebox/GameBox0607_gb_video.asp

Wednesday, June 14, 2006

Fim de um ciclo

E pronto, é o fim. Hoje foi, oficialmente, o meu ultimo dia na Universidade Católica Portuguesa. Sinceramente, pensei que me iria custar mais. Acho que foi porque, de certa forma, já tinha feito a despedida. De qualquer modo, custou estar na biblioteca a ver a chuva cair la fora. Foi estranho atravessar os portões e saber que seria a ultima vez que o faria enquanto estudante. Foi estranho entrar na minha última sala de aula para fazer a minha última frequência. Foi estranho sentar-me sozinho no bar, a olhar para aquele espaço onde vivi tantas coisas boas. Acabaram-se as cartadas, os risos, as baldas, a D.Isabel a tirar jolas. Até dos "homenzinhos de verde" eu vou ter saudades.
Não sou, decididamente, daqueles que se sentem aliviados por ter terminado. Penso no que vou deixar para trás e assusto-me. Sempre tive dificuldade em encerrar ciclos da minha vida, mas este é, sem duvida, o que me custou mais até hoje.
Restam-me as recordações, que vou guardar para sempre.

Monday, May 29, 2006

Frio

Lágrimas. Denunciadoras de uma pressão interior insustentável.
Ajudam-me. Limpam-me. Dão-me asas de volta à pureza de que me afasto.
Surpreendida?Sabes que tenho em mim pedaços de noite.
Olho-me ao espelho e não sei quem vejo. Sufocas-me.
Sugas-me a alma como um mosquito me suga o sangue.
Que coisa mesquinha é o tempo. Como nos faz marionetas no palco da fortuna…
Vês-me?Sou o mais miserável e carunchoso boneco, que gesticula sem ninguém o ver.
E a plateia bate palmas sem saber porquê.
Culpa tua. Fizeste de mim um nada que se arrasta.
Quero tanto amar. Amar de verdade, não esta doença com que me infectaste.
Seria então humano, genuinamente humano, seria visto, reconhecido.
Mas sei que não deixas.
Odeio-te.
Resta-me purgar a dor neste silêncio que me devora.
As trevas engolem-me o espírito e distorcem-me os sentidos.
A tua imagem aparece-me como um espectro difuso e no entanto tão presente.
Sabia desde o inicio que este grito de raiva apenas me traria uma ilusão passageira.
Sinto-me a ser arrastado por ti de volta à cela escura de onde fugi.
A porta fecha-se com um estrondo e eu fico sentado a um canto, a tremer.
Está tanto frio.

Monday, May 22, 2006

A melhor frase do jantar de finalistas

"Tenho tanta comida entre os dentes que, se beijar alguma gaja hoje, ela fica ceada!"
Sim, é nojento. Mas não deixa de ter a sua piada!

Monday, May 15, 2006

"Vive a vida feliz"

Esta frase poderia estar escrita num qualquer livro de frases feitas ou de ajuda espiritual. Mas não. Estava escrita na parede de uma casa a cair aos bocados, no meio de um amontoado de outras semelhantes, em pleno Brasil.
Acho que vou recordar para sempre o momento em que a vi. Ia encostado à janela, sonolento, cansado de uma viagem de autocarro que parecia não ter fim. De repente, uma visão desperta-me do sono, e levanto-me para ver melhor. Olhei em volta, tentado perceber se mais alguém tinha visto o mesmo ou se tudo não passara de uma partida provocada pelo sono. Não fui o único, a frase estava mesmo lá. Voltei a acomodar-me no assento e mergulhei nos meus pensamentos.
"Vive a vida feliz"...
Repeti mentalmente a frase dezenas de vezes.
Meu Deus, como é que é possível aquilo estar escrito num sitio daqueles?!...Não poderia estar mais desenquadrada!...não é?...ou será que não?...
É estranho. Mas subitamente percebi que dificilmente haveria melhor lugar para aquela frase estar escrita.
Passamos a vida a queixarmo-nos, a achar que os nossos problemas são os maiores do mundo...
A pessoa que escreveu isto provavelmente passa fome, não tem dinheiro para comprar medicamentos, para se vestir ou para sustentar a família. No entanto, diz-nos para vivermos a nossa vida, felizes. Certamente, ele segue essa máxima. E será, porventura, feliz.
Curioso como recebemos lições de vida das maneiras mais inesperadas.
A frase apareceu-me em pelo menos mais duas ocasiões, durante aqueles dias. Li-a nos olhos de um taxista que se dizia "abençoado", mesmo tendo em conta que a mulher esteve à beira da morte, simplesmente por não ter dinheiro para pagar a um médico que a curasse de um braço partido, que entretanto começara a infectar. E li-a no sorriso imenso de um menino que encontrámos em Porto de Galinhas. Ambos a repetiram para mim, à sua maneira. Ambos me deram força. Ambos me ensinaram a viver.
A magia do Brasil, mais do que feita de paisagens de cortar a respiração, é feita das pessoas que nele habitam. Também eu me sinto abençoado, por ter tido a oportunidade de ver, de sentir o espírito que envolve aquela terra.
Há problemas que não podemos controlar, mas há muitos que podemos e devemos, porque o seu efeito depende apenas da nossa atitude perante eles. Basta parar um pouco e pensar se aquilo que nos está a afectar terá assim tanta importância, quando comparado com problemas de outras ordens. Dar mais valor ao que temos em vez de passar o tempo a lamentar o que não temos.
A vida passa num instante. É bom que a vivamos felizes.